'Gesto de amor', diz mãe que adotou crianças autistas e vende salgados para sustentar os filhos no Acre

Escrito em 10/05/2026


Mulher adota crianças autistas e vende salgados para sustentá-los no Acre “Adotar é um gesto de amor que não vem do útero, vem do coração e mudou completamente a minha vida. O lúpus tirou o meu sonho de ser mãe após três abortos espontâneos mas os meninos vieram para me tornar a mãe que sou hoje" A frase é da professora Maria Lúcia Souza Saraiva, de 47 anos, que encontrou na adoção o caminho para realizar o sonho da maternidade. Mãe solo, ela cria dois filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sustenta a família com a venda de salgados, no município de Tarauacá, interior do Acre. ✅ Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Maria Lúcia contou ao g1 que mora com os filhos Francisco Wriel de Lima Oliveira, de 11 anos, e Adriel Ravi Souza Saraiva, de 8. A história da família começou a mudar quando a professora decidiu transformar uma dor pessoal em propósito. Diagnosticada com lúpus após anos de sintomas e limitações físicas, incluindo um período em que precisou se locomover com uma cadeira de rodas, ela precisou abrir mão da carreira em sala de aula e também do sonho de gerar um filho biologicamente. Maria Lúcia Souza Saraiva, de 47 anos, adotou Francisco Wriel de 11 anos, e Adriel Ravi, de 8, ambos autistas Arquivo pessoal “Eu nunca desisti de ser mãe. Só entendi que ser aquela mãe que tem um filho, vai muito além de gerar e depois que eles chegaram a minha vida se transformou para melhor”, afirma. De acordo com a professora, a primeira adoção aconteceu em outubro de 2014, quando Wriel era bebê. Pouco tempo depois, Maria Lúcia percebeu sinais diferentes no desenvolvimento da criança. Com experiência em educação especial, buscou acompanhamento e teve o diagnóstico de autismo. Anos depois, em 2017 decidiu adotar novamente. Foi quando chegou Adriel Ravi, que também está dentro do espectro autista e ainda apresenta outras condições como distúrbio do sono. Contudo, o espectro não é a única adversidade que Lucia enfrenta, visto que cria os filhos sozinha. Tudo em prol dos filhos Conforme a professora, desde que se divorciou, toda a rotina foi adaptada para dar conta dos cuidados. A mulher acorda por volta de 4h para preparar os salgados que vende ao longo do dia. Depois, organiza a casa, cuida dos filhos e os leva para escola e terapias. Tudo de motocicleta, seu meio de transporte. “Eu sou mãe, pai, motorista, terapeuta. Eu sou tudo e eu tenho que dar conta. Apesar da correria, eu não troco minha rotina com meus filhos por nada. Como não podia mais estar dentro de sala de aula devido ao lúpus, resolvi empreender, e com isso, fico o dia com meus filhos. É maravilhoso", diz. Francisco Wriel de Lima Oliveira, de 11 anos, e Adriel Ravi Souza Saraiva, de 8, foram adotados pela professora Arquivo pessoal A professora explicou que Wriel é mais reservado, gosta de silêncio e tem hiperfoco em animais e natureza. Já Ravi é mais agitado, gosta de som alto e multidões, contudo, enfrenta dificuldades para dormir, pois o organismo não produz melatonina. “A parte mais difícil é lidar com o distúrbio dele, não é nem o autismo, pois eu já os conheço e sei das limitações e necessidades de cada um”, relata. Atualmente, Lúcia conta que o maior objetivo é concluir a reforma da casa onde vive com os filhos. O imóvel está inacabado e traz preocupações, principalmente com a segurança dos meninos. Adriel Ravi, o filho mais novo, tem o hábito de fugir, e nos fundos da residência há um igarapé. “Meu maior sonho hoje é terminar minha casa para dar mais segurança para eles. Já cansei de ver os vizinhos vindo deixar o Ravi, pois ele foge e morro de medo de acontecer algo principalmente por esse igarapé, o que aumenta o risco de infelizmente acontecer algo”, comenta. Empreendimento Sem poder trabalhar fora de casa devido ao cuidado com as crianças, Maria Lúcia começou durante a pandemia da Covid-19 a empreender, sendo essa a saída que encontrou para poder sustentar a família. Família sobrevive de uma fábrica criada por Lucia, onde fornece salgados para festas e estabelecimentos na região Arquivo pessoal Ela começou vendendo churrasquinho durante a noite através de delivery, todavia, o desgaste físico a levou a buscar outra alternativa. Foi então que criou a “Oficina do Sabor”, uma pequena fábrica de produção de salgados montada na cozinha de casa. Hoje, o negócio é a principal fonte de renda da família e atende encomendas para eventos na cidade, como festas de aniversário e confraternizações. “O mínimo que a gente vende por dia é de 600 a 700 salgados, para uma cidade pequena, acho que estamos muito bem”, conta. Com a ajuda do irmão, Lucia conseguiu adquirir uma máquina modeladora de salgados, um equipamento industrial que automatiza a produção de coxinhas, bolinhas de queijo e rissoles com menos mão de obra, o que aumentou a produção e melhorou as condições de trabalho. “Meu irmão me presenteou em dezembro do ano passado, no mês do meu aniversário e foi uma benção. Hoje trabalham na fábrica: eu, a esposa do meu irmão e temos uma ajudante. Apesar da gente não ser uma lanchonete, fornecemos salgado para toda cidade”, acrescenta. Maquinário da fábrica dado de presente pelo irmão da professora Arquivo pessoal Superação A trajetória, no entanto, foi marcada por dificuldades. Em um dos momentos mais críticos, Maria Lúcia contou que em 2018 se mudou para Rio Branco. À época, chegou a dormir com os filhos em um espaço improvisado dentro de um restaurante onde trabalhava. Mãe solo, ela cria sozinha dois filhos em Tarauacá, interior do Acre Arquivo pessoal “Foi a única vez que pensei em desistir, só eu sei a luta que foi. Tinha ido para a capital exatamente em busca de tratamento para eles. Lembro que naquele tempo, não tinha assistência gratuita, então eu ainda precisava pagar as terapias dos meninos em Rio Branco”, lembra. Ela também enfrentou obstáculos para conseguir benefícios sociais para os filhos, precisando recorrer à Justiça após negativas iniciais, devido à retificação do nome das crianças, que passou, segundo ela, por erro cartorário, cerca de três vezes. "Eles erram sobrenome, depois a escrita correta, foi luta", diz. Mesmo sendo mãe solo, Lúcia destaca que nunca esteve completamente sozinha. A família mora próximo e participa ativamente da rotina. “A gente vive como uma grande família. Meus filhos são cuidados por todos. Vim de um lar com amor e meus filhos têm afeto da avó, tios e primos”, afirma. No Dia das Mães, a celebração ganha um significado especial. Maria Lúcia costuma levar os filhos para visitar abrigos e incentivar a solidariedade, e entre renúncias, conquistas e desafios, a professora afirma que encontrou na maternidade um novo sentido para a vida. “Eu ensino eles a dividir, a olhar para quem precisa e eles entendem que já estiveram naquela situação. Juntamos brinquedos e fazemos doação, eles ficam tão felizes e me sinto realizada. Meus filhos me ensinaram o verdadeiro amor. Hoje eu sou feliz”, explica. Reveja os telejornais do Acre
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