Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho Alicia Coriolano / Reprodução da capa do álbum 'Ciclo' (1983) ♫ MARIA BETHÂNIA 80 ANOS ♬ Nascida em 18 de junho de 1946, Maria Bethânia chega hoje aos 80 anos com trajetória inatacável, pautada pela altivez do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria. Movido pela espiritualidade que rege a artista, espécie de divindade no panteão da MPB com quem (quase) ninguém ousa mexer, esse canto atinge os rincões mais profundos do Brasil sem deixar de cantar as dores de amores comuns a toda a gente do campo ou da cidade. O canto de Bethânia educa porque, através dele, versos de poetas como Fernando Pessoa e Clarice Lispector escaparam dos nichos literários e chegaram aos ouvidos do grande público interpretados por uma cantora que também nos pega pela palavra. Educa por transitar pela estrada de um sertão que resiste aos vícios e hits da industrialização. Por conduzir o público do Brasil às rodas da cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), norte do canto da artista. A força motriz de Bethânia também vem da voz da mãe, Claudionor Vianna Telles Velloso (1907 – 2012), a Dona Canô, a que está em tudo que Bethânia canta, das louvações aos santos e orixás aos sambas-canção da era do rádio. Bethânia não vai na onda. Bethânia traz a onda, aponta o que ninguém via, propõe que se atente para um compositor. O que seria de Roberto Mendes e de outros grandes compositores de Santo Amaro sem a voz-guia de Bethânia a mostrar uma obra que, sem a projeção nacional da intérprete, talvez tivesse ficado conhecida somente em redutos locais? O canto de Bethânia também comove porque a voz grave sabe transitar entre a delicadeza e a dramaticidade com inteligência rara. Admiradora de Dalva de Oliveira, estrela da era do rádio, Maria Bethânia embute alta carga de teatralidade no canto. Esta é a marca da artista desde que, em fevereiro de 1965, a debutante subiu ao palco de teatro do bairro carioca de Copacabana para alçar um voo sem volta pelo Brasil a partir do canto de “Carcará”. Contudo, dona do dom e das emoções, também sabe baixar os tons se assim lhe convém para ruminar mágoas, solidões, ressentimentos ou vinganças. Mas quando sempre canta nas alturas, com as veias abertas para a emoção, os olhos imponentes nos olhos embevecidos das plateias. Avessa a rótulos e a modismos, Maria Bethânia atravessou seis décadas de carreira com fidelidade a si mesma. Lutou para ser Maria Bethânia e, quando cedeu, como no caso da sugestão do executivo Marcos Maynard para que gravasse em 1993 um álbum com canções de Roberto Carlos, o fez sem baixar a cabeça, com a habitual imponência. E fez assim porque todas as canções do Roberto, do mano Caetano Veloso, dos Chicos (tanto o Buarque como César, ambos recorrentes nos repertórios da intérprete), de Gonzaguinha, de Arnaldo Antunes e de Adriana Calcanhotto – entre outros compositores – pareceram feitas para ela. Mesmo quando não foram. E é comovente a entrega de Bethânia a cada canção. Ela depura a palavra através do canto que, em cena, abafa arranjos e instrumentistas virtuosos. Todas as atenções e olhos são para a intérprete. Por fim, o canto de Maria Bethânia inebria porque tem algo de sobrenatural ali. Mais do que um canto em si, parece haver uma energia poderosa quando Bethânia solta a voz e se entrega, palavra por palavra, à magia do palco, com o brilho dos olhos que nunca arrefeceu em 63 anos de carreira iniciada ainda em Salvador (BA). Maria Bethânia é tão grande como a Mangueira que celebrou a existência da Menina de Oyá no desfile campeão do Carnaval de 2016, por ocasião dos 70 anos da artista. Estação primeira da música brasileira neste 2026 em que já não há a presença física da maioria das grandes cantoras de MPB surgidas nos anos 1960, Maria Bethânia carece de explicação, assim como a Mangueira. Embora a gente tente buscar alguma para celebrar, no dia dos 80 anos da cantora, essa força sobrenatural que ainda parece longe de secar. ♫ Leia outros textos sobre os 80 anos de Maria Bethânia: ♬ Maria Bethânia 80 anos: conheça oito álbuns menos ouvidos (mas nem por isso menos relevantes...) da cantora ♬ Maria Bethânia 80 anos: conheça 80 gravações que atestam a grande força da intérprete em seis décadas de disco
Maria Bethânia chega aos 80 anos com a altivez intacta do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria
Escrito em 18/06/2026
Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho Alicia Coriolano / Reprodução da capa do álbum 'Ciclo' (1983) ♫ MARIA BETHÂNIA 80 ANOS ♬ Nascida em 18 de junho de 1946, Maria Bethânia chega hoje aos 80 anos com trajetória inatacável, pautada pela altivez do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria. Movido pela espiritualidade que rege a artista, espécie de divindade no panteão da MPB com quem (quase) ninguém ousa mexer, esse canto atinge os rincões mais profundos do Brasil sem deixar de cantar as dores de amores comuns a toda a gente do campo ou da cidade. O canto de Bethânia educa porque, através dele, versos de poetas como Fernando Pessoa e Clarice Lispector escaparam dos nichos literários e chegaram aos ouvidos do grande público interpretados por uma cantora que também nos pega pela palavra. Educa por transitar pela estrada de um sertão que resiste aos vícios e hits da industrialização. Por conduzir o público do Brasil às rodas da cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), norte do canto da artista. A força motriz de Bethânia também vem da voz da mãe, Claudionor Vianna Telles Velloso (1907 – 2012), a Dona Canô, a que está em tudo que Bethânia canta, das louvações aos santos e orixás aos sambas-canção da era do rádio. Bethânia não vai na onda. Bethânia traz a onda, aponta o que ninguém via, propõe que se atente para um compositor. O que seria de Roberto Mendes e de outros grandes compositores de Santo Amaro sem a voz-guia de Bethânia a mostrar uma obra que, sem a projeção nacional da intérprete, talvez tivesse ficado conhecida somente em redutos locais? O canto de Bethânia também comove porque a voz grave sabe transitar entre a delicadeza e a dramaticidade com inteligência rara. Admiradora de Dalva de Oliveira, estrela da era do rádio, Maria Bethânia embute alta carga de teatralidade no canto. Esta é a marca da artista desde que, em fevereiro de 1965, a debutante subiu ao palco de teatro do bairro carioca de Copacabana para alçar um voo sem volta pelo Brasil a partir do canto de “Carcará”. Contudo, dona do dom e das emoções, também sabe baixar os tons se assim lhe convém para ruminar mágoas, solidões, ressentimentos ou vinganças. Mas quando sempre canta nas alturas, com as veias abertas para a emoção, os olhos imponentes nos olhos embevecidos das plateias. Avessa a rótulos e a modismos, Maria Bethânia atravessou seis décadas de carreira com fidelidade a si mesma. Lutou para ser Maria Bethânia e, quando cedeu, como no caso da sugestão do executivo Marcos Maynard para que gravasse em 1993 um álbum com canções de Roberto Carlos, o fez sem baixar a cabeça, com a habitual imponência. E fez assim porque todas as canções do Roberto, do mano Caetano Veloso, dos Chicos (tanto o Buarque como César, ambos recorrentes nos repertórios da intérprete), de Gonzaguinha, de Arnaldo Antunes e de Adriana Calcanhotto – entre outros compositores – pareceram feitas para ela. Mesmo quando não foram. E é comovente a entrega de Bethânia a cada canção. Ela depura a palavra através do canto que, em cena, abafa arranjos e instrumentistas virtuosos. Todas as atenções e olhos são para a intérprete. Por fim, o canto de Maria Bethânia inebria porque tem algo de sobrenatural ali. Mais do que um canto em si, parece haver uma energia poderosa quando Bethânia solta a voz e se entrega, palavra por palavra, à magia do palco, com o brilho dos olhos que nunca arrefeceu em 63 anos de carreira iniciada ainda em Salvador (BA). Maria Bethânia é tão grande como a Mangueira que celebrou a existência da Menina de Oyá no desfile campeão do Carnaval de 2016, por ocasião dos 70 anos da artista. Estação primeira da música brasileira neste 2026 em que já não há a presença física da maioria das grandes cantoras de MPB surgidas nos anos 1960, Maria Bethânia carece de explicação, assim como a Mangueira. Embora a gente tente buscar alguma para celebrar, no dia dos 80 anos da cantora, essa força sobrenatural que ainda parece longe de secar. ♫ Leia outros textos sobre os 80 anos de Maria Bethânia: ♬ Maria Bethânia 80 anos: conheça oito álbuns menos ouvidos (mas nem por isso menos relevantes...) da cantora ♬ Maria Bethânia 80 anos: conheça 80 gravações que atestam a grande força da intérprete em seis décadas de disco

