Vibrio vulnificus CDC/James Gathany A Vibrio vulnificus, um tipo de bactéria “comedora de carne” que prospera em águas marinhas quentes, está mais uma vez ameaçando a segurança de banhistas e de pessoas que gostam de consumir mariscos crus. Até o momento, Louisiana registrou nove casos, com cinco mortes, e a Flórida registrou 14 casos, com duas mortes. Até o fim de junho, Maryland havia registrado 72 casos. Sou professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, onde meu laboratório estuda microbiologia e doenças infecciosas. Veja por que as autoridades de saúde estão tão preocupadas com essa infecção mortal — e como evitar contraí-la. O que significa “comedora de carne”? Existem vários tipos de bactérias capazes de infectar feridas abertas e provocar uma condição rara chamada fasciíte necrosante. Essas bactérias não danificam apenas a superfície da pele — elas liberam toxinas que destroem os tecidos abaixo dela, incluindo músculos, nervos e vasos sanguíneos. Quando as bactérias chegam à corrente sanguínea, passam a ter acesso fácil a outros tecidos e sistemas do organismo. Sem tratamento, a fasciíte necrosante pode ser fatal, às vezes em até 48 horas. A espécie bacteriana Streptococcus do grupo A, também conhecida como estreptococo do grupo A, é a causa mais comum de fasciíte necrosante. Mas os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) também apontam a Vibrio vulnificus como outra possível causadora. Há apenas 150 a 200 casos de infecção por Vibrio vulnificus nos Estados Unidos a cada ano, mas a taxa de mortalidade é alta: uma em cada cinco pessoas infectadas morre. Os casos também aumentaram na Europa. Parasita que provoca 'diarreia explosiva' infecta mais de 2,8 mil pessoas nos EUA; investigação aponta alface como suspeita Como se contrai a bactéria “comedora de carne”? A Vibrio vulnificus vive principalmente em águas marinhas quentes, mas também pode ser encontrada em águas salobras — áreas onde a água do mar se mistura com água doce. A maioria das infecções nos Estados Unidos ocorre nos meses mais quentes, entre maio e outubro. Pessoas que nadam, pescam ou entram nessas águas podem contrair a bactéria por meio de uma ferida aberta ou lesão na pele. A Vibrio vulnificus também pode contaminar frutos do mar retirados dessas águas, especialmente moluscos como ostras. Consumir esses alimentos crus ou malcozidos pode provocar intoxicação alimentar, enquanto manuseá-los com uma ferida aberta pode criar uma porta de entrada para a bactéria e levar à fasciíte necrosante. Nos Estados Unidos, a Vibrio vulnificus é uma das principais causas de mortes associadas ao consumo de frutos do mar. O que é a doença dos legionários, infecção que já matou duas pessoas e infectou mais de 70 em surto em Nova York Por que as infecções por bactérias “comedoras de carne” estão aumentando? A Vibrio vulnificus é encontrada em águas costeiras quentes ao redor do mundo, como as dos estados do sul da Costa do Golfo dos Estados Unidos. Mas o aumento da temperatura dos oceanos provocado pelo aquecimento global está criando novos habitats para esse tipo de bactéria, que agora pode ser encontrada ao longo da Costa Leste americana até áreas tão ao norte quanto Nova York e Connecticut. Um estudo recente observou que as infecções de feridas por Vibrio vulnificus aumentaram oito vezes entre 1988 e 2018 no leste dos Estados Unidos. A Vibrio vulnificus também está se espalhando por áreas costeiras do norte da Europa e do Mar Báltico como consequência das mudanças climáticas, que estão elevando a temperatura das águas. As mudanças climáticas também estão intensificando furacões e marés de tempestade, fenômenos associados a picos nos casos de infecção por bactérias “comedoras de carne” devido ao aumento do contato das pessoas com água do mar ou água salobra. Também está crescendo em todo o mundo o número de pessoas mais vulneráveis a infecções graves, incluindo aquelas com diabetes e as que tomam medicamentos que suprimem o sistema imunológico. Quais são os sintomas e os tratamentos da fasciíte necrosante? Os primeiros sintomas de uma ferida infectada incluem febre, vermelhidão, dor intensa ou inchaço no local da lesão. Se você apresentar esses sintomas, procure atendimento médico imediatamente. A fasciíte necrosante pode avançar rapidamente, provocando úlceras, bolhas, alteração na cor da pele e pus. O tratamento de infecções por bactérias “comedoras de carne” é uma corrida contra o tempo. Os profissionais de saúde administram antibióticos diretamente na corrente sanguínea para matar as bactérias. Em muitos casos, o tecido danificado precisa ser removido cirurgicamente para impedir que a infecção se espalhe rapidamente. Às vezes, isso significa amputar os membros afetados. Pesquisadores estão preocupados com o fato de que um número cada vez maior de casos pode se tornar impossível de tratar porque a Vibrio vulnificus desenvolveu resistência a determinados antibióticos. Como posso me proteger? O CDC apresenta diversas recomendações para ajudar a prevenir a infecção. Pessoas que tenham um corte recente, incluindo quem acabou de colocar um piercing ou fazer uma tatuagem, são aconselhadas a evitar águas onde a Vibrio vulnificus possa estar presente. Caso contrário, a ferida deve ser completamente coberta com um curativo impermeável. Até mesmo um arranhão ou corte minúsculo é suficiente para que a Vibrio vulnificus penetre sob a pele. Um caso chegou a ser associado a pernas recém-depiladas com lâmina. Pessoas com feridas abertas também devem evitar manusear frutos do mar ou peixes crus. Feridas que ocorram durante a pesca, o preparo de frutos do mar ou enquanto a pessoa nada devem ser lavadas imediatamente e cuidadosamente com água e sabão. Qualquer pessoa pode desenvolver fasciíte necrosante, mas idosos e pessoas com o sistema imunológico enfraquecido são mais suscetíveis a quadros graves. Isso inclui pessoas que tomam medicamentos imunossupressores ou que têm condições preexistentes, como doença hepática, câncer, HIV ou diabetes. É importante ter em mente que, atualmente, a fasciíte necrosante continua sendo muito rara. Mas, diante da gravidade da doença, é importante estar bem informado. Os casos de infecção por Vibrio vulnificus são aproximadamente tão raros quanto ataques de tubarão. Embora mordidas de tubarão recebam mais atenção, o “tubarão microscópico” que é a Vibrio vulnificus também pode custar uma vida ou um membro. *Bill Sullivan é professor de microbiologia e imunologia na Indiana University. **Esta é uma versão atualizada de um artigo originalmente publicado pelo The Conversation em 25 de setembro de 2023.
Casos de bactéria ‘comedora de carne’ aumentam com aquecimento dos oceanos
Escrito em 15/08/2026
Vibrio vulnificus CDC/James Gathany A Vibrio vulnificus, um tipo de bactéria “comedora de carne” que prospera em águas marinhas quentes, está mais uma vez ameaçando a segurança de banhistas e de pessoas que gostam de consumir mariscos crus. Até o momento, Louisiana registrou nove casos, com cinco mortes, e a Flórida registrou 14 casos, com duas mortes. Até o fim de junho, Maryland havia registrado 72 casos. Sou professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, onde meu laboratório estuda microbiologia e doenças infecciosas. Veja por que as autoridades de saúde estão tão preocupadas com essa infecção mortal — e como evitar contraí-la. O que significa “comedora de carne”? Existem vários tipos de bactérias capazes de infectar feridas abertas e provocar uma condição rara chamada fasciíte necrosante. Essas bactérias não danificam apenas a superfície da pele — elas liberam toxinas que destroem os tecidos abaixo dela, incluindo músculos, nervos e vasos sanguíneos. Quando as bactérias chegam à corrente sanguínea, passam a ter acesso fácil a outros tecidos e sistemas do organismo. Sem tratamento, a fasciíte necrosante pode ser fatal, às vezes em até 48 horas. A espécie bacteriana Streptococcus do grupo A, também conhecida como estreptococo do grupo A, é a causa mais comum de fasciíte necrosante. Mas os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) também apontam a Vibrio vulnificus como outra possível causadora. Há apenas 150 a 200 casos de infecção por Vibrio vulnificus nos Estados Unidos a cada ano, mas a taxa de mortalidade é alta: uma em cada cinco pessoas infectadas morre. Os casos também aumentaram na Europa. Parasita que provoca 'diarreia explosiva' infecta mais de 2,8 mil pessoas nos EUA; investigação aponta alface como suspeita Como se contrai a bactéria “comedora de carne”? A Vibrio vulnificus vive principalmente em águas marinhas quentes, mas também pode ser encontrada em águas salobras — áreas onde a água do mar se mistura com água doce. A maioria das infecções nos Estados Unidos ocorre nos meses mais quentes, entre maio e outubro. Pessoas que nadam, pescam ou entram nessas águas podem contrair a bactéria por meio de uma ferida aberta ou lesão na pele. A Vibrio vulnificus também pode contaminar frutos do mar retirados dessas águas, especialmente moluscos como ostras. Consumir esses alimentos crus ou malcozidos pode provocar intoxicação alimentar, enquanto manuseá-los com uma ferida aberta pode criar uma porta de entrada para a bactéria e levar à fasciíte necrosante. Nos Estados Unidos, a Vibrio vulnificus é uma das principais causas de mortes associadas ao consumo de frutos do mar. O que é a doença dos legionários, infecção que já matou duas pessoas e infectou mais de 70 em surto em Nova York Por que as infecções por bactérias “comedoras de carne” estão aumentando? A Vibrio vulnificus é encontrada em águas costeiras quentes ao redor do mundo, como as dos estados do sul da Costa do Golfo dos Estados Unidos. Mas o aumento da temperatura dos oceanos provocado pelo aquecimento global está criando novos habitats para esse tipo de bactéria, que agora pode ser encontrada ao longo da Costa Leste americana até áreas tão ao norte quanto Nova York e Connecticut. Um estudo recente observou que as infecções de feridas por Vibrio vulnificus aumentaram oito vezes entre 1988 e 2018 no leste dos Estados Unidos. A Vibrio vulnificus também está se espalhando por áreas costeiras do norte da Europa e do Mar Báltico como consequência das mudanças climáticas, que estão elevando a temperatura das águas. As mudanças climáticas também estão intensificando furacões e marés de tempestade, fenômenos associados a picos nos casos de infecção por bactérias “comedoras de carne” devido ao aumento do contato das pessoas com água do mar ou água salobra. Também está crescendo em todo o mundo o número de pessoas mais vulneráveis a infecções graves, incluindo aquelas com diabetes e as que tomam medicamentos que suprimem o sistema imunológico. Quais são os sintomas e os tratamentos da fasciíte necrosante? Os primeiros sintomas de uma ferida infectada incluem febre, vermelhidão, dor intensa ou inchaço no local da lesão. Se você apresentar esses sintomas, procure atendimento médico imediatamente. A fasciíte necrosante pode avançar rapidamente, provocando úlceras, bolhas, alteração na cor da pele e pus. O tratamento de infecções por bactérias “comedoras de carne” é uma corrida contra o tempo. Os profissionais de saúde administram antibióticos diretamente na corrente sanguínea para matar as bactérias. Em muitos casos, o tecido danificado precisa ser removido cirurgicamente para impedir que a infecção se espalhe rapidamente. Às vezes, isso significa amputar os membros afetados. Pesquisadores estão preocupados com o fato de que um número cada vez maior de casos pode se tornar impossível de tratar porque a Vibrio vulnificus desenvolveu resistência a determinados antibióticos. Como posso me proteger? O CDC apresenta diversas recomendações para ajudar a prevenir a infecção. Pessoas que tenham um corte recente, incluindo quem acabou de colocar um piercing ou fazer uma tatuagem, são aconselhadas a evitar águas onde a Vibrio vulnificus possa estar presente. Caso contrário, a ferida deve ser completamente coberta com um curativo impermeável. Até mesmo um arranhão ou corte minúsculo é suficiente para que a Vibrio vulnificus penetre sob a pele. Um caso chegou a ser associado a pernas recém-depiladas com lâmina. Pessoas com feridas abertas também devem evitar manusear frutos do mar ou peixes crus. Feridas que ocorram durante a pesca, o preparo de frutos do mar ou enquanto a pessoa nada devem ser lavadas imediatamente e cuidadosamente com água e sabão. Qualquer pessoa pode desenvolver fasciíte necrosante, mas idosos e pessoas com o sistema imunológico enfraquecido são mais suscetíveis a quadros graves. Isso inclui pessoas que tomam medicamentos imunossupressores ou que têm condições preexistentes, como doença hepática, câncer, HIV ou diabetes. É importante ter em mente que, atualmente, a fasciíte necrosante continua sendo muito rara. Mas, diante da gravidade da doença, é importante estar bem informado. Os casos de infecção por Vibrio vulnificus são aproximadamente tão raros quanto ataques de tubarão. Embora mordidas de tubarão recebam mais atenção, o “tubarão microscópico” que é a Vibrio vulnificus também pode custar uma vida ou um membro. *Bill Sullivan é professor de microbiologia e imunologia na Indiana University. **Esta é uma versão atualizada de um artigo originalmente publicado pelo The Conversation em 25 de setembro de 2023.