A professora Eliane Carvalho, de 63 anos, transformou a própria existência em um ato de resistência. Reprodução Internada em um colégio de freiras na adolescência, a professora aposentada Eliane Carvalho, de 63 anos, afirmou que crescer como mulher lésbica nos anos 1960 foi um desafio marcado por repressões e tentativas de enquadramento. Ela é uma das homenageadas na 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso. Filha caçula de uma família nordestina com quatro irmãos, ela contou ao g1 que foi criada pelo pai após a morte da mãe, quando tinha 5 anos. Por não corresponder às expectativas da família, na adolescência, foi enviada para o internato religioso, onde deveria aprender os chamados “modos de moça”. “Diziam que era para aprender modos de moça, porque eu parecia macho… então dá para imaginar o cenário familiar”, afirmou. Eliane relatou que assumir-se lésbica naquela época significava enfrentar o medo constante de discriminação e o peso do preconceito dentro e fora da família. Segundo ela, muitas mulheres precisavam se esconder para evitar violências e julgamentos. “Ser chamada de sapatão na minha época era uma vergonha para a família. A gente acabava se escondendo para não sofrer as consequências de ser apontada e discriminada [...] Hoje podemos presenciar meninas novas já se posicionando. São meninas fincando a bandeira num solo firme mesmo, mostrando que estão ali, que precisam ser ouvidas, compreendidas e respeitadas como tal, é isso é maravilhoso”, ressaltou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Agora no g1 Ela afirmou que encontrou nos movimentos sociais, nas paradas do orgulho e nas vivências políticas da comunidade LGBTQIAPN+ um espaço de fortalecimento. Para ela, a luta coletiva foi essencial para romper barreiras e abrir caminhos para as novas gerações. “A minha trajetória é significativa porque lutamos o tempo todo para romper barreiras e abrir caminhos para as que estão vindo depois de nós. [...] ainda estamos aqui, e não somos poucas, afirmou. Segundo a professora, sua trajetória, marcada por desafios desde a infância, se conecta diretamente ao tema do evento deste ano: “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”. Para ela, chegar aos 63 anos “continuando a existir” é resultado de resistência. “Hoje tenho 63 anos e ainda continuo existindo. Ser quem sou sem ter que dar satisfações a ninguém: ser feliz, resistindo! Envelhecer com orgulho é mostrar que sobrevivemos e que merecemos respeito em todas as fases da vida”, disse. Para Eliane, falar sobre envelhecimento na comunidade LGBTQIAPN+ é reconhecer a trajetória de quem resistiu ao preconceito por décadas e segue reivindicando espaço e dignidade. Segundo ela, dar visibilidade a essas histórias é uma forma de mostrar que pessoas LGBTQIAPN+ envelhecem, continuam contribuindo para a sociedade e precisam ser contempladas por políticas públicas efetivas. “Não adianta quererem nos esconder. É fundamental ter políticas públicas que sejam ativas, que funcionem de fato para os cuidados deste público que muito contribuem para o andamento deste país enquanto pessoas que tem um RG, um CPF, e um título eleitoral e que trabalham, criando e participando das decisões de tudo o que nos cercam, de tudo o que envolve,” afirmou. IBGE inclui orientação sexual pela primeira vez em 2019 Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, marcou o primeiro levantamento oficial no Brasil que considerou a orientação sexual autoidentificada na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A inclusão desse recorte ocorreu em 2019. No levantamento, Mato Grosso registrou cerca de 35,9 mil pessoas com 18 anos ou mais que se declararam homossexuais ou bissexuais. O número representa aproximadamente 1,4% da população adulta do estado, estimada em 2,51 milhões naquele ano. Segundo o IBGE, a maior parte da população adulta mato-grossense em 2019 se declarou heterossexual: cerca de 2,43 milhões de pessoas, o equivalente a 96,9%. O estudo também identificou um grupo que não respondeu ou afirmou não saber a própria orientação sexual. Foram cerca de 36,4 mil pessoas nessa condição, número superior ao total de autodeclarados homossexuais ou bissexuais no estado. 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso O evento já está na 23º edição, celebrando dez anos desde a 13ª Parada da Diversidade Sexual, em Cuiabá, que percorreu ruas e avenidas do centro da cidade. Renê Dióz / G1 A 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso aconteceu no último sábado (27). O evento, um dos principais do estado na pauta de direitos humanos e diversidade, contou com atividades culturais, políticas e artísticas, além do show nacional da cantora Tati Quebra Barraco no encerramento. Com o tema “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”, a edição deste ano ampliou o debate sobre direitos da população LGBTQIAPN+ ao longo da vida para valorizar a história do movimento no estado.
Professora de MT internada para aprender 'modos de moça' conta como foi crescer como mulher lésbica nos anos 60
Escrito em 28/06/2026
A professora Eliane Carvalho, de 63 anos, transformou a própria existência em um ato de resistência. Reprodução Internada em um colégio de freiras na adolescência, a professora aposentada Eliane Carvalho, de 63 anos, afirmou que crescer como mulher lésbica nos anos 1960 foi um desafio marcado por repressões e tentativas de enquadramento. Ela é uma das homenageadas na 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso. Filha caçula de uma família nordestina com quatro irmãos, ela contou ao g1 que foi criada pelo pai após a morte da mãe, quando tinha 5 anos. Por não corresponder às expectativas da família, na adolescência, foi enviada para o internato religioso, onde deveria aprender os chamados “modos de moça”. “Diziam que era para aprender modos de moça, porque eu parecia macho… então dá para imaginar o cenário familiar”, afirmou. Eliane relatou que assumir-se lésbica naquela época significava enfrentar o medo constante de discriminação e o peso do preconceito dentro e fora da família. Segundo ela, muitas mulheres precisavam se esconder para evitar violências e julgamentos. “Ser chamada de sapatão na minha época era uma vergonha para a família. A gente acabava se escondendo para não sofrer as consequências de ser apontada e discriminada [...] Hoje podemos presenciar meninas novas já se posicionando. São meninas fincando a bandeira num solo firme mesmo, mostrando que estão ali, que precisam ser ouvidas, compreendidas e respeitadas como tal, é isso é maravilhoso”, ressaltou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Agora no g1 Ela afirmou que encontrou nos movimentos sociais, nas paradas do orgulho e nas vivências políticas da comunidade LGBTQIAPN+ um espaço de fortalecimento. Para ela, a luta coletiva foi essencial para romper barreiras e abrir caminhos para as novas gerações. “A minha trajetória é significativa porque lutamos o tempo todo para romper barreiras e abrir caminhos para as que estão vindo depois de nós. [...] ainda estamos aqui, e não somos poucas, afirmou. Segundo a professora, sua trajetória, marcada por desafios desde a infância, se conecta diretamente ao tema do evento deste ano: “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”. Para ela, chegar aos 63 anos “continuando a existir” é resultado de resistência. “Hoje tenho 63 anos e ainda continuo existindo. Ser quem sou sem ter que dar satisfações a ninguém: ser feliz, resistindo! Envelhecer com orgulho é mostrar que sobrevivemos e que merecemos respeito em todas as fases da vida”, disse. Para Eliane, falar sobre envelhecimento na comunidade LGBTQIAPN+ é reconhecer a trajetória de quem resistiu ao preconceito por décadas e segue reivindicando espaço e dignidade. Segundo ela, dar visibilidade a essas histórias é uma forma de mostrar que pessoas LGBTQIAPN+ envelhecem, continuam contribuindo para a sociedade e precisam ser contempladas por políticas públicas efetivas. “Não adianta quererem nos esconder. É fundamental ter políticas públicas que sejam ativas, que funcionem de fato para os cuidados deste público que muito contribuem para o andamento deste país enquanto pessoas que tem um RG, um CPF, e um título eleitoral e que trabalham, criando e participando das decisões de tudo o que nos cercam, de tudo o que envolve,” afirmou. IBGE inclui orientação sexual pela primeira vez em 2019 Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, marcou o primeiro levantamento oficial no Brasil que considerou a orientação sexual autoidentificada na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A inclusão desse recorte ocorreu em 2019. No levantamento, Mato Grosso registrou cerca de 35,9 mil pessoas com 18 anos ou mais que se declararam homossexuais ou bissexuais. O número representa aproximadamente 1,4% da população adulta do estado, estimada em 2,51 milhões naquele ano. Segundo o IBGE, a maior parte da população adulta mato-grossense em 2019 se declarou heterossexual: cerca de 2,43 milhões de pessoas, o equivalente a 96,9%. O estudo também identificou um grupo que não respondeu ou afirmou não saber a própria orientação sexual. Foram cerca de 36,4 mil pessoas nessa condição, número superior ao total de autodeclarados homossexuais ou bissexuais no estado. 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso O evento já está na 23º edição, celebrando dez anos desde a 13ª Parada da Diversidade Sexual, em Cuiabá, que percorreu ruas e avenidas do centro da cidade. Renê Dióz / G1 A 23ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Mato Grosso aconteceu no último sábado (27). O evento, um dos principais do estado na pauta de direitos humanos e diversidade, contou com atividades culturais, políticas e artísticas, além do show nacional da cantora Tati Quebra Barraco no encerramento. Com o tema “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”, a edição deste ano ampliou o debate sobre direitos da população LGBTQIAPN+ ao longo da vida para valorizar a história do movimento no estado.