Jaguatirica invade toca para predar filhote de tatu-canastra no Cerrado de MS Pela primeira vez, câmeras instaladas pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) flagraram uma jaguatirica invadindo a toca de um tatu-canastra e predando um filhote de apenas 11 dias de vida no Cerrado de Mato Grosso do Sul. (Veja vídeo acima) O registro faz parte de um estudo científico que revela um novo desafio para a conservação da espécie. Além dos riscos enfrentados durante a troca de tocas, os filhotes também podem ser atacados dentro do próprio abrigo, considerado até então um local seguro. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Jaguatirica invade toca para predar filhote de tatu-canastra em MS Reprodução/Icas O flagrante ocorreu em uma área de Cerrado na Fazenda Mutum, cerca de 175 km de Campo Grande,onde duas fêmeas de tatu-canastra são monitoradas pelos pesquisadores. Dias antes do ataque, uma das fêmeas escavou uma toca de reprodução. Esse tipo de abrigo é reconhecido pelo grande monte de areia em frente à entrada e pelo comportamento característico da mãe de vedar completamente a abertura com terra sempre que sai para procurar alimento. A fêmea deixou a toca às 3h52, fechando cuidadosamente a entrada. Vinte minutos depois, uma jaguatirica apareceu, farejou o local, cavou a entrada e tentou acessar o interior da toca. Após cerca de um minuto, desistiu. No dia seguinte, a cena se repetiu. Antes de sair para se alimentar, a fêmea passou cerca de três minutos vedando novamente a entrada da toca. Ela utilizou as patas dianteiras para puxar areia, as traseiras para compactar o solo e pressionou o escudo da cabeça contra a abertura para selá-la completamente. Pouco mais de uma hora depois, a mesma jaguatirica retornou. Identificada pelo padrão único de manchas na pelagem, ela escavou a entrada durante quatro minutos até conseguir abrir passagem. Ao sair da toca, carregava na boca o filhote de tatu-canastra, com apenas 11 dias de vida. Depois do ataque, o felino voltou novamente ao local para inspecionar a toca. Na madrugada seguinte, a mãe retornou ao abrigo e passou vários minutos entrando e saindo da toca, em um comportamento que, segundo os pesquisadores, indica que procurava o filhote. Mesmo após a perda, ela continuou visitando a toca quase todas as noites até o início de julho, inspecionando a entrada e, em alguns dias, dormindo no local antes de abandonar definitivamente a área. Filhotes são essenciais para a sobrevivência da espécie O tatu-canastra possui uma das menores taxas reprodutivas entre os mamíferos da América do Sul. As fêmeas atingem a maturidade sexual apenas entre seis e oito anos de idade e dão à luz apenas um filhote por gestação, a cada três anos. Segundo o presidente do Icas e um dos autores do estudo, Arnaud Desbiez, esse baixo ritmo reprodutivo torna cada nascimento extremamente importante para a conservação da espécie. "Cada filhote é extremamente precioso para a conservação da espécie. A perda de um único indivíduo representa um impacto importante porque o crescimento populacional do tatu-canastra é muito lento", afirma. Além disso, o cuidado materno é prolongado. O filhote depende exclusivamente do leite da mãe durante cerca de seis a oito meses, continua utilizando suas tocas por aproximadamente um ano e meio e, mesmo após a dispersão, permanece vivendo dentro da área ocupada pela mãe. Até então, os pesquisadores acreditavam que o período de maior risco ocorria apenas durante a mudança de tocas, realizada a cada duas ou três semanas. "Sabíamos que esse era o momento mais delicado, porque o filhote caminha lentamente enquanto acompanha a mãe durante a troca de tocas. Mas nunca imaginávamos que ele também pudesse ser predado dentro da própria toca", explica Desbiez. Outro filhote desapareceu O estudo também descreve um segundo caso, ocorrido no Pantanal da Nhecolândia. Um filhote de 54 dias, acompanhado por uma fêmea desapareceu durante uma longa mudança de toca. Os pesquisadores seguiram as pegadas da mãe e do filhote por cerca de 800 metros. Em determinado ponto, após atravessarem uma área aberta de aproximadamente 600 metros, os rastros do filhote desapareceram. Somente as pegadas da mãe voltaram a ser encontradas, já próximas à nova toca. Desde então, as armadilhas fotográficas nunca mais registraram o filhote. Os pesquisadores acreditam que ele tenha sido predado durante a travessia. Poucas horas antes do desaparecimento, um macho adulto de tatu-canasstra havia sido capturado para monitoramento na mesma região. Como os machos da espécie podem cometer infanticídio, os pesquisadores avaliam que sua presença pode ter levado a mãe a realizar um deslocamento muito maior do que o habitual para proteger o filhote. Embora a carcaça não tenha sido localizada, os autores consideram mais provável que o animal tenha sido capturado por um predador, como uma jaguatirica ou uma onça-parda. Descoberta muda o que se sabia sobre a espécie Os pesquisadores afirmam que o estudo amplia o conhecimento sobre a reprodução do tatu-canastra. Até então, havia apenas um registro de morte de filhote causado por um macho da própria espécie e outro caso envolvendo um jovem provavelmente capturado por um grande felino. Os demais registros publicados referiam-se a atropelamentos de animais adultos. Agora, as imagens demonstram que os filhotes permanecem vulneráveis tanto dentro quanto fora das tocas, revelando um risco até então desconhecido para uma das espécies mais ameaçadas da fauna brasileira. O estudo também reforça a importância do monitoramento contínuo por armadilhas fotográficas, capaz de registrar comportamentos extremamente raros e fundamentais para orientar estratégias de conservação. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul:
Vídeo inédito mostra jaguatirica invadir toca e predar filhote de tatu-canastra no Cerrado
Escrito em 05/08/2026
Jaguatirica invade toca para predar filhote de tatu-canastra no Cerrado de MS Pela primeira vez, câmeras instaladas pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) flagraram uma jaguatirica invadindo a toca de um tatu-canastra e predando um filhote de apenas 11 dias de vida no Cerrado de Mato Grosso do Sul. (Veja vídeo acima) O registro faz parte de um estudo científico que revela um novo desafio para a conservação da espécie. Além dos riscos enfrentados durante a troca de tocas, os filhotes também podem ser atacados dentro do próprio abrigo, considerado até então um local seguro. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Jaguatirica invade toca para predar filhote de tatu-canastra em MS Reprodução/Icas O flagrante ocorreu em uma área de Cerrado na Fazenda Mutum, cerca de 175 km de Campo Grande,onde duas fêmeas de tatu-canastra são monitoradas pelos pesquisadores. Dias antes do ataque, uma das fêmeas escavou uma toca de reprodução. Esse tipo de abrigo é reconhecido pelo grande monte de areia em frente à entrada e pelo comportamento característico da mãe de vedar completamente a abertura com terra sempre que sai para procurar alimento. A fêmea deixou a toca às 3h52, fechando cuidadosamente a entrada. Vinte minutos depois, uma jaguatirica apareceu, farejou o local, cavou a entrada e tentou acessar o interior da toca. Após cerca de um minuto, desistiu. No dia seguinte, a cena se repetiu. Antes de sair para se alimentar, a fêmea passou cerca de três minutos vedando novamente a entrada da toca. Ela utilizou as patas dianteiras para puxar areia, as traseiras para compactar o solo e pressionou o escudo da cabeça contra a abertura para selá-la completamente. Pouco mais de uma hora depois, a mesma jaguatirica retornou. Identificada pelo padrão único de manchas na pelagem, ela escavou a entrada durante quatro minutos até conseguir abrir passagem. Ao sair da toca, carregava na boca o filhote de tatu-canastra, com apenas 11 dias de vida. Depois do ataque, o felino voltou novamente ao local para inspecionar a toca. Na madrugada seguinte, a mãe retornou ao abrigo e passou vários minutos entrando e saindo da toca, em um comportamento que, segundo os pesquisadores, indica que procurava o filhote. Mesmo após a perda, ela continuou visitando a toca quase todas as noites até o início de julho, inspecionando a entrada e, em alguns dias, dormindo no local antes de abandonar definitivamente a área. Filhotes são essenciais para a sobrevivência da espécie O tatu-canastra possui uma das menores taxas reprodutivas entre os mamíferos da América do Sul. As fêmeas atingem a maturidade sexual apenas entre seis e oito anos de idade e dão à luz apenas um filhote por gestação, a cada três anos. Segundo o presidente do Icas e um dos autores do estudo, Arnaud Desbiez, esse baixo ritmo reprodutivo torna cada nascimento extremamente importante para a conservação da espécie. "Cada filhote é extremamente precioso para a conservação da espécie. A perda de um único indivíduo representa um impacto importante porque o crescimento populacional do tatu-canastra é muito lento", afirma. Além disso, o cuidado materno é prolongado. O filhote depende exclusivamente do leite da mãe durante cerca de seis a oito meses, continua utilizando suas tocas por aproximadamente um ano e meio e, mesmo após a dispersão, permanece vivendo dentro da área ocupada pela mãe. Até então, os pesquisadores acreditavam que o período de maior risco ocorria apenas durante a mudança de tocas, realizada a cada duas ou três semanas. "Sabíamos que esse era o momento mais delicado, porque o filhote caminha lentamente enquanto acompanha a mãe durante a troca de tocas. Mas nunca imaginávamos que ele também pudesse ser predado dentro da própria toca", explica Desbiez. Outro filhote desapareceu O estudo também descreve um segundo caso, ocorrido no Pantanal da Nhecolândia. Um filhote de 54 dias, acompanhado por uma fêmea desapareceu durante uma longa mudança de toca. Os pesquisadores seguiram as pegadas da mãe e do filhote por cerca de 800 metros. Em determinado ponto, após atravessarem uma área aberta de aproximadamente 600 metros, os rastros do filhote desapareceram. Somente as pegadas da mãe voltaram a ser encontradas, já próximas à nova toca. Desde então, as armadilhas fotográficas nunca mais registraram o filhote. Os pesquisadores acreditam que ele tenha sido predado durante a travessia. Poucas horas antes do desaparecimento, um macho adulto de tatu-canasstra havia sido capturado para monitoramento na mesma região. Como os machos da espécie podem cometer infanticídio, os pesquisadores avaliam que sua presença pode ter levado a mãe a realizar um deslocamento muito maior do que o habitual para proteger o filhote. Embora a carcaça não tenha sido localizada, os autores consideram mais provável que o animal tenha sido capturado por um predador, como uma jaguatirica ou uma onça-parda. Descoberta muda o que se sabia sobre a espécie Os pesquisadores afirmam que o estudo amplia o conhecimento sobre a reprodução do tatu-canastra. Até então, havia apenas um registro de morte de filhote causado por um macho da própria espécie e outro caso envolvendo um jovem provavelmente capturado por um grande felino. Os demais registros publicados referiam-se a atropelamentos de animais adultos. Agora, as imagens demonstram que os filhotes permanecem vulneráveis tanto dentro quanto fora das tocas, revelando um risco até então desconhecido para uma das espécies mais ameaçadas da fauna brasileira. O estudo também reforça a importância do monitoramento contínuo por armadilhas fotográficas, capaz de registrar comportamentos extremamente raros e fundamentais para orientar estratégias de conservação. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: