Paula Santoro canta Lô Borges e Milton Nascimento com toda a propriedade (e promessa de vida) em show no Rio

Escrito em 29/03/2026


Paula Santoro apresenta o show 'Tudo que você podia ser' no palco do Acaso Cultural, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de ontem, 28 de março Mauro Ferreira / g1 ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Tudo que você podia ser Artista: Paula Santoro Data e local: 28 de março de 2026 no Acaso Cultural (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ “Tenho muito o que viver”. Esse verso da letra de “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) adquiriu sentido pleno para Paula Santoro no show apresentado pela cantora mineira com o pianista Rafael Vernet no teatro do Acaso Cultural, charmoso polo de arte que abriu as portas em outubro na cidade do Rio de Janeiro (RJ). É que a apresentação do show “Tudo que você podia ser” na noite de ontem, 28 de março, simbolizou renovada promessa de vida no coração da artista. Foi a primeira vez em que Paula Santoro subiu ao palco já totalmente curada do câncer que enfrentou ao longo de 2025. A celebração da cura foi explicitada ao fim do show em fala dirigida à plateia repleta de amigos, familiares, alunos (Santoro também é professora de canto e fonoaudióloga) e jornalistas admiradores dessa cantora de exemplar técnica vocal. O show “Tudo que você podia ser” é desdobramento do show anterior de 2024, feito por Paula em duo com o mesmo Rafael Vernet, pianista e arranjador gaúcho com quem a cantora trabalha há anos. No show anterior, a cantora dava voz aos compositores mineiros agregados entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1970 em torno de Milton Nascimento, líder da turma fundadora do movimento conhecido como Clube da Esquina. No show “Tudo que você podia ser”, o foco do roteiro reside somente nos cancioneiros de Milton Nascimento e Lô Borges (1952 – 2025), sendo que as músicas da discografia solo de Lô compõem a real novidade do repertório do show atual no confronto com o roteiro de 2024. Paula Santoro em apresentação do show 'Tudo que você podia ser' no Acaso Cultural, polo de arte e cultura da cidade do Rio de Janeiro (RJ) Mauro Ferreira / g1 Hábil no garimpo e na lapidação do ouro de Minas, Paula Santoro é cantora vocacionada para desbravar os inusitados e por vezes intrincados caminhos harmônicos da obra de Lô Borges, como mostrou ao dar voz à música “O caçador” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972), apresentada no primeiro álbum solo de Lô, conhecido popularmente como “O disco do tênis” pela fotografia de Cafi (1950 – 2019) exposta na capa do LP. Por meio dos versos do letrista Márcio Borges, “O caçador” retratou o clima de tensão de tempo nublado em que os defensores da liberdade eram os alvos preferenciais do aparelho repressivo em vigor do Brasil nos anos 1970. O terror da ditadura era denunciado de forma mais ou menos explícita em músicas como “Léo” (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1978), momento em que o canto de Paula Santoro atingiu densidade bisada dois números depois com a lembrança de “E daí?” (Milton Nascimento e Ruy Guerra, 1978), um dos pontos mais altos do show, inclusive pelo alcance da voz da intérprete na escala musical. “Outubro” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) foi outro momento denso em que a cantora reiterou a habilidade para valorizar músicas de arquitetura sofisticada. Contudo, Paula Santoro jamais jogou nota fora ao longo do show para mostrar virtuosismo. A cantora também brilhou no tempo de delicadeza em que envolveu canções como “A Via Láctea” (Lô Borges e Márcio Borges, 1979) – música-título do álbum considerado (com razão) a obra-prima da discografia solo de Lô Borges – e “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges e Márcio Borges, 2002), composição melodiosa com alto poder de sedução. Desde o primeiro número, “Ponta de areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), ficou evidenciado o clima de comunhão que regeu a apresentação do show “Tudo que você podia ser”, com a cantora incentivando o coro do público, seja quando pegou “O trem azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos, 1972) no bis, ensinando a divisão adotada por Elis Regina (1945 – 1982) para a plateia, seja quando deu tom inicialmente sereno à canção “Um girassol da cor de seu cabelo” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972), número que caiu em suingue percussivo após solo do pianista Rafael Vernet. O coro da plateia por vezes impediu a completa fruição do canto da artista, mas fez sentido em show focado na celebração da vida. Entre sucessos como a canção-título do show “Tudo que você podia ser” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) e músicas lembradas somente por reais conhecedores do cancioneiro de Lô, caso de “Ela” (Lô Borges e Márcio Borges, 1979), Paula Santoro seguiu a travessia mineira com toda propriedade fazendo do braço e da voz o viver renovado com a cura do câncer. Paula Santoro canta músicas como 'A Via Láctea' e 'Quem sabe isso quer dizer amor' no show 'Tudo que você podia ser' Mauro Ferreira / g1
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