Gabriel Leone encara repertório pautado pelo desamor em 'Minhas lágrimas', álbum orquestrado com produção de Marcus Preto e Tó Brandileone Zabenzi / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Minhas lágrimas Artista: Gabriel Leone Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ A despeito de já ter gravado músicas para trilhas sonoras de filmes e séries ao longo dos últimos dez anos, o ator Gabriel Leone somente entra de fato em cena como cantor com o lançamento do primeiro álbum do artista carioca de 32 anos. E já chega chegando. Em rotação desde a última sexta-feira, 6 de março, em edição do selo MP,B, o álbum “Minhas lágrimas” é a prova de que mais valem um conceito e um intérprete sensível do que uma voz deslumbrante ou opulenta, mas estéril ou sem alma. Sim, Leone canta bem, é afinado e coloca apropriadamente a voz nas 10 músicas selecionadas no vasto baú de lados B da MPB. Contudo, o que eleva o álbum “Minhas lágrimas” são a inteligência do canto do intérprete – hábil no entendimento pleno do sentido dos versos a que dá voz – e a grandiosidade da produção musical orquestrada por Marcus Preto (principal incentivador do disco, no qual atuou como diretor artístico) e Tó Brandileone. Cordas e metais são utilizados de forma por vezes suntuosa, mas sem exibicionismos gratuitos, sendo postos a serviço dos sempre certeiros arranjos executados pela big banda formada por Agenor de Lorenzi (piano, órgão e sintetizadores), Fábio Sá (baixo), Filipe Coimbra (guitarra), Sidmar Vieira (metais), Tiago Costa (cordas e metais), Vitor Cabral (bateria) e Will Bone (metais), além do produtor musical Tó Brandileone na guitarra, nas percussões e no violão. “Minhas lágrimas” é álbum situado no universo da MPB, mas também transita pelo rock de atmosfera indie. Essa conexão é evidenciada logo na primeira faixa do álbum, “Cara limpa” (Paulo Vanzolini, 1974), samba reconstruído por Leone com exuberante arranjo de tom inicialmente áspero e minimalista. À medida que avança, a gravação de “Cara limpa” ganha o peso do rock e vai ficando cada vez mais encorpada com profusão de cordas e metais até voltar para o minimalismo do início, evidenciado na ênfase do toque do piano de Agenor de Lorenzi, fechando um arco condizente com o teor da música e do próprio álbum. “Posso lhe dizer que olho pra ela e nada sinto / Posso lhe dizer com a cara limpa enquanto minto”, canta Leone, vertendo no irretocável repertório de “Minhas lágrimas” o sentimento de resignação e/ou vazio que ecoa ao longo do disco. “Minhas lágrimas” é álbum atravessado por desertos existenciais como o da música-título de Caetano Veloso, lançada pelo autor no álbum “Cê” (2006) e reavivada por Leone no fecho do disco, arrematando conceito que jamais se perde ao longo das dez faixas. Gabriel Leone canta com o grupo 'Boca Livre' no Recife Se Leone interioriza no canto o sofrimento entranhado nos versos de “Choro das águas” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977), em arranjo que parece derramar as lágrimas do eu-lírico da canção, “Segredo” (1986) é desvendado pelo ator-cantor na sala escura do sentimento com suingue funky na introdução do arranjo que evolui sinuoso como o cancioneiro de Djavan, autor dessa balada de acento blues conhecida somente pelos seguidores mais atentos do compositor. Em “Êta nóis” (Luhli e Lucina, 1984), Leone ameniza o sotaque caipira do tema, terçando vozes com Ney Matogrosso, intérprete original da música ambientada no universo rural recorrente na obra de Luhli & Lucina. Dentro do conceito afetivo do álbum, “Êta nóis” é a composição menos melancólica por lembrar que o fel da desamor um dia vira mel no milagre permanente da lida / vida. Faixa que precedeu o álbum em single lançado em 5 de dezembro, “Nós dois” (Celso Adofo, 1983) descortina a beleza melódica e poética de canção sobre amor represado, entoada por Leone no devido tempo de delicadeza. Não cabia na arquitetura de “Nós dois” a grandiosidade que desaba na introdução de “Antes da chuva chegar” (1976), balada angustiada do primeiro álbum de Guilherme Arantes, lançado há 50 anos. O arranjo evoca o universo meio prog do universo do cancioneiro de Arantes em meados dos anos 1970 em gravação que reitera a exatidão do canto de Leone. Em “As portas do meu sorriso” (1979), Leone abre espaço para o canto agudo de Juliana Linhares, convidada da gravação de tom country-folk dessa música composta por Fagner com Paulinho Tapajós (1945 – 2013) por volta de 1971 e gravada pelos autores anos depois em dueto apresentado no álbum “Amigos e parceiros” (1979), de Tapajós. Com alma de blues e aura de indie-rock, Leone encara o sentimento de inadequação e a fera da solidão no canto de “Assim sem mais” (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão), música lançada por João Bosco no álbum “Zona de fronteira”(1991). Na sequência, a gravação de “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) corrobora a inteligência e a sensibilidade do canto de Leone no álbum. Afinado com o arranjo de timbres rascantes, o canto de Gabriel Leone verte lágrimas de sangue (sem cair no melodrama) no registro desse bolero difundido por Elis Regina (1945 – 1982) em feat com Cauby Peixoto (1931 – 2016) para o álbum “Elis, essa mulher” (1979). “Bolero de Satã” prepara o clima para o gran finale com a canção-título “Minhas lágrimas”, ouvida em registro quase épico. Enfim, no resumo dessa ópera do desamor, Gabriel Leone nasce oficialmente como cantor com grande álbum em que põe a voz a serviço das canções com a sensibilidade que o guia na travessia pelos desertos da alma. Capa do álbum 'Minhas lágrimas', de Gabriel Leone Zabenzi com arte de Lucas Pires
Ator Gabriel Leone entra em cena como cantor com grande álbum valorizado pela produção musical e pela alma do artista
Escrito em 09/03/2026
Gabriel Leone encara repertório pautado pelo desamor em 'Minhas lágrimas', álbum orquestrado com produção de Marcus Preto e Tó Brandileone Zabenzi / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Minhas lágrimas Artista: Gabriel Leone Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ A despeito de já ter gravado músicas para trilhas sonoras de filmes e séries ao longo dos últimos dez anos, o ator Gabriel Leone somente entra de fato em cena como cantor com o lançamento do primeiro álbum do artista carioca de 32 anos. E já chega chegando. Em rotação desde a última sexta-feira, 6 de março, em edição do selo MP,B, o álbum “Minhas lágrimas” é a prova de que mais valem um conceito e um intérprete sensível do que uma voz deslumbrante ou opulenta, mas estéril ou sem alma. Sim, Leone canta bem, é afinado e coloca apropriadamente a voz nas 10 músicas selecionadas no vasto baú de lados B da MPB. Contudo, o que eleva o álbum “Minhas lágrimas” são a inteligência do canto do intérprete – hábil no entendimento pleno do sentido dos versos a que dá voz – e a grandiosidade da produção musical orquestrada por Marcus Preto (principal incentivador do disco, no qual atuou como diretor artístico) e Tó Brandileone. Cordas e metais são utilizados de forma por vezes suntuosa, mas sem exibicionismos gratuitos, sendo postos a serviço dos sempre certeiros arranjos executados pela big banda formada por Agenor de Lorenzi (piano, órgão e sintetizadores), Fábio Sá (baixo), Filipe Coimbra (guitarra), Sidmar Vieira (metais), Tiago Costa (cordas e metais), Vitor Cabral (bateria) e Will Bone (metais), além do produtor musical Tó Brandileone na guitarra, nas percussões e no violão. “Minhas lágrimas” é álbum situado no universo da MPB, mas também transita pelo rock de atmosfera indie. Essa conexão é evidenciada logo na primeira faixa do álbum, “Cara limpa” (Paulo Vanzolini, 1974), samba reconstruído por Leone com exuberante arranjo de tom inicialmente áspero e minimalista. À medida que avança, a gravação de “Cara limpa” ganha o peso do rock e vai ficando cada vez mais encorpada com profusão de cordas e metais até voltar para o minimalismo do início, evidenciado na ênfase do toque do piano de Agenor de Lorenzi, fechando um arco condizente com o teor da música e do próprio álbum. “Posso lhe dizer que olho pra ela e nada sinto / Posso lhe dizer com a cara limpa enquanto minto”, canta Leone, vertendo no irretocável repertório de “Minhas lágrimas” o sentimento de resignação e/ou vazio que ecoa ao longo do disco. “Minhas lágrimas” é álbum atravessado por desertos existenciais como o da música-título de Caetano Veloso, lançada pelo autor no álbum “Cê” (2006) e reavivada por Leone no fecho do disco, arrematando conceito que jamais se perde ao longo das dez faixas. Gabriel Leone canta com o grupo 'Boca Livre' no Recife Se Leone interioriza no canto o sofrimento entranhado nos versos de “Choro das águas” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977), em arranjo que parece derramar as lágrimas do eu-lírico da canção, “Segredo” (1986) é desvendado pelo ator-cantor na sala escura do sentimento com suingue funky na introdução do arranjo que evolui sinuoso como o cancioneiro de Djavan, autor dessa balada de acento blues conhecida somente pelos seguidores mais atentos do compositor. Em “Êta nóis” (Luhli e Lucina, 1984), Leone ameniza o sotaque caipira do tema, terçando vozes com Ney Matogrosso, intérprete original da música ambientada no universo rural recorrente na obra de Luhli & Lucina. Dentro do conceito afetivo do álbum, “Êta nóis” é a composição menos melancólica por lembrar que o fel da desamor um dia vira mel no milagre permanente da lida / vida. Faixa que precedeu o álbum em single lançado em 5 de dezembro, “Nós dois” (Celso Adofo, 1983) descortina a beleza melódica e poética de canção sobre amor represado, entoada por Leone no devido tempo de delicadeza. Não cabia na arquitetura de “Nós dois” a grandiosidade que desaba na introdução de “Antes da chuva chegar” (1976), balada angustiada do primeiro álbum de Guilherme Arantes, lançado há 50 anos. O arranjo evoca o universo meio prog do universo do cancioneiro de Arantes em meados dos anos 1970 em gravação que reitera a exatidão do canto de Leone. Em “As portas do meu sorriso” (1979), Leone abre espaço para o canto agudo de Juliana Linhares, convidada da gravação de tom country-folk dessa música composta por Fagner com Paulinho Tapajós (1945 – 2013) por volta de 1971 e gravada pelos autores anos depois em dueto apresentado no álbum “Amigos e parceiros” (1979), de Tapajós. Com alma de blues e aura de indie-rock, Leone encara o sentimento de inadequação e a fera da solidão no canto de “Assim sem mais” (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão), música lançada por João Bosco no álbum “Zona de fronteira”(1991). Na sequência, a gravação de “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) corrobora a inteligência e a sensibilidade do canto de Leone no álbum. Afinado com o arranjo de timbres rascantes, o canto de Gabriel Leone verte lágrimas de sangue (sem cair no melodrama) no registro desse bolero difundido por Elis Regina (1945 – 1982) em feat com Cauby Peixoto (1931 – 2016) para o álbum “Elis, essa mulher” (1979). “Bolero de Satã” prepara o clima para o gran finale com a canção-título “Minhas lágrimas”, ouvida em registro quase épico. Enfim, no resumo dessa ópera do desamor, Gabriel Leone nasce oficialmente como cantor com grande álbum em que põe a voz a serviço das canções com a sensibilidade que o guia na travessia pelos desertos da alma. Capa do álbum 'Minhas lágrimas', de Gabriel Leone Zabenzi com arte de Lucas Pires