Julia Vargas lança amanhã, 10 de abril, o terceiro álbum solo de estúdio, 'D'água', com repertório e conceito bem amarrados Paulo Velozo / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: D’água Artista: Julia Vargas Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Julia Vargas é excelente cantora emergida nos anos 2010 no universo da MPB, como mostrou ao lançar o primeiro álbum em 2012. Como a MPB atualmente sobrevive em nichos do mercado da música, a artista fluminense – nascida em Cabo Frio (RJ) em maio de 1989 – vem buscando outros caminhos para se manter em cena. “D’água”, álbum que Julia lança amanhã, 10 de abril, em edição da gravadora Biscoito Fino, flagra a cantora em trânsito por trilhas até então pouco exploradas. “A sonoridade do disco está mais para o R&B, para o soul, uma coisa mais bluseira, mas rock'n'roll também”, situa a artista ao discorrer sobre a natureza do álbum gravado em 2019, sob direção musical da própria Julia Vargas, com o toque dos músicos Gabriel Barbosa (bateria), Gui Marques (sintetizadores e coprodução musical), João Bittencourt (teclados e acordeom) e Marcos Luz (baixo). A pista dessa sonoridade áspera já havia sido dada em 20 de março com a edição do single que apresentou a potente abordagem de “Comportamento geral” (Gonzaguinha, 1972), música desviada por Julia da cadência bonita do samba para evidenciar o esmagamento cotidiano do cidadão brasileiro pela estrutura social moldada para transformar povo em gado. Apresentada em 1972, a letra continua atual, tão contemporânea quanto o discurso feminino do blues “Pavio”, música que acende a parceria de Julia com a contemporânea Duda Brack. Até então essencialmente intérprete, Julia Vargas se apresenta como compositora (ainda sem delinear uma assinatura própria) em três das nove faixas do álbum “D’água”, cuja capa, belíssima, retrata a artista em foto de Paulo Veloso e arte de Jeff Corsi. Sozinha, Julia assina música e letra de “Vem” – canção mais suave, convidativa a uma viagem romântica para qualquer lugar – e “Atrás da cortina da pantera”, tema de atmosfera sensual, cantado pela autora em tons quase lânguidos. Julia Vargas assina três das nove músicas que compõem o repertório do álbum 'D'água' Isabela Espíndola / Divulgação A salutar aspereza dos arranjos dilui qualquer eventual traço de doçura do xote “Sinceramente”, composição de Khrystal e Moyseis Marques cantada por Julia Vargas com Roberta Sá, cuja voz soa menos cristalina do que de costume para se ajustar ao tom firme dos versos do xote e do disco. “Dá licença que eu me vou / Que onde não tem amor / Eu não costumo demorar / Se era doce e se acabou / Não era assim tão doce”, avaliam as cantoras em versos afinados com o conceito do repertório, postura reiterada na letra altiva de “Riscando o chão”, boa composição de Duda Brack que versa sobre mulher decidida a dançar na chuva até se libertar do jugo do parceiro. “ ‘D'água’ é um grito de liberdade. O álbum fala sobre coragem, o desaguar de sentimentos guardados”, caracteriza Julia Vargas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A coragem da artista se reflete na escolha das músicas regravadas. Uma das melhores cantoras brasileiras do século XXI, Julia faz desabrochar “Flor lilás” (Luhli, 1972) – música até então nunca revisitada do repertório da dupla Luhli & Lucina – e encara “Maluca” (Luís Capucho, 1993) ao lado de Zélia Duncan em gravação que celebra o legado de Cássia Eller (1962 – 2001), cantora que propagou “Maluca” em álbum de 1999. E cabe ressaltar que, pela afinidade musical com Chico Chico, com quem já dividiu palcos e estúdios, Julia Vargas tem legitimidade para reverenciar Cássia sem soar marqueteira. Detalhe luxuoso: tanto “Flor lilás” quanto “Maluca” são canções que falam de flores e da recorrente chuva nas respectivas letras, o que justifica que sejam ouvidas em sequência na disposição das faixas no álbum “D’água”, reiterando que o conceito do álbum é bem amarrado e que nenhuma escolha foi aleatória. Com a voz sempre colocada com firmeza, Julia Vargas também dispara “Bomba” – parceria do compositor argentino Nicolas de Francesco com Alisson Sant – em gravação bilíngue que alterna versos em português e espanhol. Acendendo pavios necessários em mundo de valores em decomposição, o álbum “D’água” evidencia que Julia Vargas é grande cantora que merece emergir com força nesse oceano de músicas e intérpretes artificiais. Capa do álbum 'D'água', de Julia Vargas Paulo Veloso com arte de Jeff Corsi
Julia Vargas 'acende pavios' em álbum, ‘D’água', sobre coragem e liberdade
Escrito em 09/04/2026
Julia Vargas lança amanhã, 10 de abril, o terceiro álbum solo de estúdio, 'D'água', com repertório e conceito bem amarrados Paulo Velozo / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: D’água Artista: Julia Vargas Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Julia Vargas é excelente cantora emergida nos anos 2010 no universo da MPB, como mostrou ao lançar o primeiro álbum em 2012. Como a MPB atualmente sobrevive em nichos do mercado da música, a artista fluminense – nascida em Cabo Frio (RJ) em maio de 1989 – vem buscando outros caminhos para se manter em cena. “D’água”, álbum que Julia lança amanhã, 10 de abril, em edição da gravadora Biscoito Fino, flagra a cantora em trânsito por trilhas até então pouco exploradas. “A sonoridade do disco está mais para o R&B, para o soul, uma coisa mais bluseira, mas rock'n'roll também”, situa a artista ao discorrer sobre a natureza do álbum gravado em 2019, sob direção musical da própria Julia Vargas, com o toque dos músicos Gabriel Barbosa (bateria), Gui Marques (sintetizadores e coprodução musical), João Bittencourt (teclados e acordeom) e Marcos Luz (baixo). A pista dessa sonoridade áspera já havia sido dada em 20 de março com a edição do single que apresentou a potente abordagem de “Comportamento geral” (Gonzaguinha, 1972), música desviada por Julia da cadência bonita do samba para evidenciar o esmagamento cotidiano do cidadão brasileiro pela estrutura social moldada para transformar povo em gado. Apresentada em 1972, a letra continua atual, tão contemporânea quanto o discurso feminino do blues “Pavio”, música que acende a parceria de Julia com a contemporânea Duda Brack. Até então essencialmente intérprete, Julia Vargas se apresenta como compositora (ainda sem delinear uma assinatura própria) em três das nove faixas do álbum “D’água”, cuja capa, belíssima, retrata a artista em foto de Paulo Veloso e arte de Jeff Corsi. Sozinha, Julia assina música e letra de “Vem” – canção mais suave, convidativa a uma viagem romântica para qualquer lugar – e “Atrás da cortina da pantera”, tema de atmosfera sensual, cantado pela autora em tons quase lânguidos. Julia Vargas assina três das nove músicas que compõem o repertório do álbum 'D'água' Isabela Espíndola / Divulgação A salutar aspereza dos arranjos dilui qualquer eventual traço de doçura do xote “Sinceramente”, composição de Khrystal e Moyseis Marques cantada por Julia Vargas com Roberta Sá, cuja voz soa menos cristalina do que de costume para se ajustar ao tom firme dos versos do xote e do disco. “Dá licença que eu me vou / Que onde não tem amor / Eu não costumo demorar / Se era doce e se acabou / Não era assim tão doce”, avaliam as cantoras em versos afinados com o conceito do repertório, postura reiterada na letra altiva de “Riscando o chão”, boa composição de Duda Brack que versa sobre mulher decidida a dançar na chuva até se libertar do jugo do parceiro. “ ‘D'água’ é um grito de liberdade. O álbum fala sobre coragem, o desaguar de sentimentos guardados”, caracteriza Julia Vargas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A coragem da artista se reflete na escolha das músicas regravadas. Uma das melhores cantoras brasileiras do século XXI, Julia faz desabrochar “Flor lilás” (Luhli, 1972) – música até então nunca revisitada do repertório da dupla Luhli & Lucina – e encara “Maluca” (Luís Capucho, 1993) ao lado de Zélia Duncan em gravação que celebra o legado de Cássia Eller (1962 – 2001), cantora que propagou “Maluca” em álbum de 1999. E cabe ressaltar que, pela afinidade musical com Chico Chico, com quem já dividiu palcos e estúdios, Julia Vargas tem legitimidade para reverenciar Cássia sem soar marqueteira. Detalhe luxuoso: tanto “Flor lilás” quanto “Maluca” são canções que falam de flores e da recorrente chuva nas respectivas letras, o que justifica que sejam ouvidas em sequência na disposição das faixas no álbum “D’água”, reiterando que o conceito do álbum é bem amarrado e que nenhuma escolha foi aleatória. Com a voz sempre colocada com firmeza, Julia Vargas também dispara “Bomba” – parceria do compositor argentino Nicolas de Francesco com Alisson Sant – em gravação bilíngue que alterna versos em português e espanhol. Acendendo pavios necessários em mundo de valores em decomposição, o álbum “D’água” evidencia que Julia Vargas é grande cantora que merece emergir com força nesse oceano de músicas e intérpretes artificiais. Capa do álbum 'D'água', de Julia Vargas Paulo Veloso com arte de Jeff Corsi